A quem interessa o Carnaval?
Jonatas Thiago de Souza é turismólogo e Graduando em Ciências Econômicas.
Por: Jonatas Thiago - Data: 30/01/2012 - 07:59:44
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Durante a madrugada, me peguei ouvindo uma determinada rádio local, passando em sua programação, um evento musical em Salvador, não que seja uma contradição fatal, encontrei outras contradições. Mais agudas mais gritantes com respeito aos eventos da capital e veio-me a cabeça o cenário do carnaval de 2012.

Nos três circuitos – Osmar (Campo Grande), Dodô (Barra - Ondina) e Batatinha (Centro Histórico), são alocados os camarotes dos poderosos, ali são montadas as estruturas da “maior festa carnavalesca do País”. Outdor, arquibancadas, elevadores moderninhos, daí me recordei de quem vi fazendo todo esse trabalho ano passado quando estive na casa de amigos nessa época ano. Homens, apenas eles faziam esse papel. Em sua maioria absoluta compostos por negros, como pude ver. Diante disso nasceu então a seguinte reflexão: quem é que organiza mesmo o “Maior carnaval do mundo”? de imediato surgiu em minha mente todos os  motoristas de trio, catadores e catadoras de latinha, policiais militares e guardas municipais, cordeiros, ambulantes, seguranças, garçons, e tantas outras pessoas e atividades que são desempenhadas antes, durante e depois da grande “festa”.

Vocês podem pensar que é uma lembrança estranha. Porém é uma lembrança como qualquer outra, mas feita do ponto de vista trabalhadora. Daqueles que enxergam o carnaval como uma forma de emprego, subemprego, ou simplesmente uma forma de conseguir algum ganho que ajude em sua renda familiar. Não sei se existe diversão em dirigir os trios, armar arquibancadas ou vender latinhas de cerveja. Há necessidade. Não me recordo da mídia, em todas as suas formas dando atenção a estes trabalhadores, á estas pessoas, humanos. Aparentemente invisíveis, mesmo coexistindo ali, do ladinho dos turistas. E o mais real e importante: são eles que realmente mantêm a existência da festa. Deveria ter uma melhor remuneração, mais atenção. Entretanto o preconceito e a contradição existem. São camisa de festas (abadas) que custam em uma única noite mais do que o dinheiro ganho por parte desses trabalhadores durante todo o evento.

Tenho certeza que se apenas existissem os empresários e a prefeitura de Salvador, não teríamos festa. Os trabalhadores negros são indispensáveis para fazer girar a engrenagem. Assim como foram com a cana-de-açúcar, com o ouro, com o café, e até hoje seguimos no mesmo rastro histórico de uma pequena elite que lucra muito em cima de uma grande massa

negra explorada. Além dos trabalhadores, os negros também se destacam em outros espaços ao longo da “folia”. Os pouquíssimos, mais sortudos, estavam nos camarotes e em cima dos trios, alguns inclusive comandando a multidão. Mas a maioria estava mesmo na “pipoca” – um local reservado para aqueles e aquelas que não têm dinheiro para entrar nos blocos ou não tem influência política para estar nos camarotes e, muitas vezes, é a única ou uma das poucas oportunidades de tentar se divertir, pois não precisa pagar nada. Temos também os mais azarados, vítimas de furtos e roubos e até mortes por esfaqueamento. Há negros para todo lado. Para todo gosto. Até mesmo, porque Salvador é a cidade brasileira com maior população negra.

Pensando bem, não sei se é possível pedir que fosse diferente. Diante dos moldes do carnaval, não sei se caberia pedir blocos abertos, boa remuneração para os profissionais. Essa é uma reflexão que levanto, mas uma coisa é certa: quem organiza e faz acontecer o carnaval baiano, sem sombra de dúvidas, são os negros e negras que até hoje resistem, pois mesmo  trabalhando em toda a estrutura da festa, continuam do lado de fora da brincadeira das “vibrações positivas”.

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